por Maria Gregório

Filho do povo indígena munduruku, Daniel nasceu em Belém, no Pará, e já publicou mais de 60 livros – entre eles, Estações, junto com Marilda Castanha, pela Editora Moderna, vencedor do Prêmio Jabuti de livro infantil em 2025. Formado em Filosofia, ele foi professor por 10 anos. Em seu trabalho, destaca e fortalece o papel da cultura indígena na formação da sociedade brasileira. Nesta conversa com a Pirueta, Daniel falou sobre a relação dos indígenas com a natureza.
O que é natureza na sua cultura?
Para os povos indígenas em geral, e para os munduruku em particular, a natureza é um ser vivo que interage com os humanos formando uma grande teia de colaboração e reciprocidade. Ou seja, para a nossa gente não há hierarquia entre os seres vivos, porque todos são interdependentes de todos. Para que isso funcione é preciso ter um equilíbrio, assim não faltarão condições de sobrevivência para nenhum ser vivo. Por isso, desde criança vamos aprendendo a respeitar o tempo da natureza, porque ela precisa se recuperar, reproduzir, descansar e se alimentar do que ela mesma produz. Cada sociedade indígena vai ensinando que todos somos parentes uns dos outros. “Parentes” não é apenas uma forma de tratamento, mas um compromisso na manutenção da vida.
Como as crianças do seu povo aprendem a cuidar da natureza?
[Isso ocorre] na base da imitação do que os adultos fazem. Observar o cuidado que os adultos têm com a natureza, a observância do tempo, o jeito de caminhar, o treino dos sentidos, que vai nos ajudar a não confrontar a natureza […]. Além disso, a gente aprende que cada planta, árvore, rio ou mesmo cada animal, peixe ou pássaro, tem um espírito protetor. Isso vai criando na criança o sentido do pertencimento, porque ela vai aprendendo que o ser humano também tem um espírito que precisa ser cuidado. Tudo isso gera respeito, cuidado e afeto com todos os seres vivos.
Ao conversar com crianças indígenas e não indígenas sobre as mudanças climáticas, o que precisa ser dito?
Precisamos não deixar que as crianças esqueçam que elas são natureza. Precisamos alimentá-las da certeza de que o que acontece à natureza acontece com cada um de nós; lembrar a elas que, sem natureza, a vida não terá continuidade; alimentar o espírito delas com as histórias ancestrais que nos ajudam a não esquecer nossa origem primeira.
O que as crianças podem fazer para ajudar a cuidar do planeta, mesmo morando na cidade?
A cidade é uma intervenção na natureza que gera desequilíbrio se não for devidamente organizada. Nossas crianças precisam aprender desde cedo que elas são partes e não donas; que há na natureza uma lei do retorno (reciprocidade) e que o que afeta a terra também afetará os filhos da terra. É importante que os pais incentivem as crianças a brincarem com a natureza ainda que seja nos parquinhos, nos quintais ou jardins urbanos; se possível, que elas aprendam a cultivar hortaliças; que cuidem bem dos pets, porque tudo está interligado. Aqui entra a necessidade de se ler histórias escritas por autores e autoras indígenas, pois isso as vai colocar no coração da própria natureza.